A BOA ÉTICA PRECEDE A BOA MEDICINA

 Se há uma legítima definição da Profissão Médica (o exercício da Medicina), que é diferente da definição de Medicina seria: é a profissão do cuidado e da empatia pelo outro. Vamos deslindar esses termos. Profissão seria o sentimento ou vocação de se declarar apto, vocacionado (chamado, de forma natural) ao exercício daquele ofício. Um médico por vocação deve ter em primeiro lugar o compromisso humanitário ou ético com o seu cliente (porque é paciente, que sofre, que padece). Ética aqui significa todas as atitudes e expedientes em busca da virtude, da segurança e restauração da saúde, do bem-estar e vida de quem está enfermo (significa frágil, não firme, de “infirmo”).

Então ampliemos mais essa ideia do compromisso do profissional médico para com o seu cliente. Entendamos esse termo. Não se trata de um cliente qualquer. Em comparativo do cliente de um advogado, que na maioria das vezes pode esperar o atendimento. Não! Daí o termo paciente, porque a palavra já se define como alguém que sofre, um doente, em estado patológico (mental ou orgânico, em geral os dois).

Assim, com estas noções de cliente, paciente, profissão e Medicina, o médico (o profissional) dever agir. Em primeiro lugar visando restabelecer, minorar, aliviar e curar o seu paciente, devolvendo-lhe saúde e vida. E aqui, faz-se um registro de igual forma substancial e humanitário (princípios éticos): que esse profissional médico ou paramédico se valha da Medicina, como uma Ciência, com princípios técnicos e instrumentais para a melhor prestação desse serviço em prol da saúde e vida do paciente. Mas, com a ética em primeiro plano. Tecnicismo, ciência e burocracia ficam para depois.

Nesses termos se pode deduzir que o bom médico é aquele que se vale de sua formação científica, técnica, instrumental e mais significativo, de sua espontaneidade ética e altruísta em prol do doente, de quem sofre e padece. Paciente que, muitas vezes, vê nesse profissional a sua última tábua de esperança. Por isso a nobreza da profissão.

E vem o porquê dessas reflexões aqui expressas. Na maioria dos cursos de Medicina, vê-se uma absoluta insuficiência dessas disciplinas como a bioética, o cuidado com o paciente, os princípios humanitários da relação médico/paciente. Os recém egressos da formação médica saem da graduação ou residências médicas com os protocolos e diretrizes no atendimento de todas as doenças. Entretanto com precários conhecimentos e treinamento nos postulados e sentimentos éticos no atendimento do paciente. Muito correto e mais aceitável seria o médico ter a formação e instrução de tratar o doente e não doença; cada pessoa é um doente particular. Não existe uma doença padrão, porque os organismos são diferentes. Cada um reage diferente aos mesmos diagnósticos, por isso o mais humano é tratar o doente e não a doença em si.  Cada pessoa traz seus valores culturais, tradicionais, crenças, doutrinas e fé. Há que se respeitar esse perfil de cada um.

Vamos dar alguns exemplos de como o ideal e o desejável seria o espirito ético como prioridade no atendimento da profissão médica em vez de obediência aos princípios científicos, da burocracia e do sistema e regras exigidos em qualquer entidade de atendimento em saúde.  Tomemos os exemplos nos prontos-socorros. Paciente chega em busca de ajuda e socorro. A primeira providência seria de imediato o socorro e alivio do sofrimento e risco de vida do doente, e não preenchimento burocrático de prontuários e toda demora no registro desses dados, cadastro, recusa por um detalhe de plano de saúde, identificação etc. Imagine, o paciente vítima de um infarto do miocárdio em risco de uma arritmia maligna e parada cardiorrespiratória. Tempo aqui e pronto socorro são expedientes-chaves, tem-se a vida do paciente em jogo.

Um exemplo bem concreto de má prestação de serviços em que este articulista se viu envolvido e também vítima pela preocupação gerada pelo descaso, negligência e demora no atendimento por motivos burocráticos. Paciente idoso, 82 anos, com síndrome de Parkinson e algumas comorbidades debilitantes.  Neoplasia de bexiga e com severa anemia. Foi indicada com urgência transfusão sanguínea. Paciente segurado do SUS e Ipasgo. O primeiro atendimento em banco de sangue de Goiânia foi às 14 h. E aqui iniciou-se a via-crúcis desse doente (em sofrimento pessoal e familiar).

No banco de sangue não foi possível a transfusão. Foi transferido a outro hospital. Já era noite, 20 h. Aqui, após longa espera e sofrimento, também não foi possível a transfusão. A justificativa era a exigência do sistema SUS, havia que serem cumpridas as normas do sistema. Paciente é transferido para outro hospital, distante desse segundo. Mais sofrimento. A internação por fim saiu já era mais de meia noite. Enfim, a infusão desse produto sanguíneo se fez após 20 horas (no dia seguinte).  Um exemplo claro e robusto da inversão das coisas, no trato ao bom, ético e humanitário atendimento profissional, em lugar de uma burra e desumana burocracia (“burrocracia”) com o incremento do sofrimento e risco de vida do paciente, como de tantos outros que esperam longas horas nas filas de UPAs e prontos-socorros.  

Agora, para concluir com o exemplo do idoso aqui citado. Paciente correu risco de morte. Por que? Anemia severa, com hemoglobina de 5- Situação equivalente de uma anemia aguda por hemorragia. Ficou 20 horas sem transfusão. Com comorbidades! Qualquer outra complicação, que poderia advir, uma queda de pressão, uma desidratação, uma arritmia leve, uma queda subida de glicose no sangue. O quanto de somatório nocivo e letal se vê nesse contexto. Enfim, faltaram a todos os agentes de saúde e serviços esse sentimento de generosidade, o senso de empatia, de cuidado com o bem-estar e vida do segurado idoso.

João Joaquim de Oliveira - médico

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