RELAÇÃO PAIS/FILHOS

 Quando se fala em relações sociais, não se pode esquecer a mais importante, a relação pais/filhos. Uma questão é se deter nessa relação nos tempos pré Internet e pós Internet e Redes Sociais. E o que há de ligação entre as relações sociais/concentradamente na relação pais/filhos com o mundo virtual e das mídias digitais? Há uma estreita conexão. Para dar mais substância e autoridade ao tema, ninguém melhor como cientista social que o filósofo polonês Zigmunt Bauman (1925-2017).

Bauman desenvolveu a teoria da chamada relação social liquida. E fundamentada nessa proposta, falemos mais especificamente das relações pais/filhos. A chamada modernidade digital, ou pós-modernidade conforme Bauman. As tecnologias da Informação (Internet e suas ubíquas redes sociais) vieram acentuar o comportamento do desapego que vigora entre pais e filhos. Porque é pertinente lembrar outro grande pensador: Aristóteles, que muito bem discorreu sobre a Ética, e nomeadamente a Ética, como valor que deve ser ensinado, treinado e praticado com as crianças, adolescentes e jovens. Vale a leitura de seu opúsculo Ética da Nicômaco (em benefício do próprio filho, Nicômaco).

Independentemente de Internet, o afeto, a amor, a singular afeição entre um pai e mãe/filho e filha, são sentimentos que dependem desse cultivo, dessa mútua troca, desse ensinamento, desse exercício desde a baixa infância. Nenhuma criança nasce com esse entendimento e esse valor, do amor ao pai e mãe. As ligações e intimidade de um recém-nascido com a mãe se fazem pelos seus instintos de sobrevivência e preservação de bem-estar, de integridade física e sua satisfação alimentar e reflexos excretórios, daí a reclamação, os protestos sobre a forma de choro, birras, e expressões de desejos quando já falam. Nesse contexto, vale até uma releitura do processo de maturação sexual da criança, fase oral, anal, genital, etc. (Teoria de Sigmund Freud).

Nessa compreensão, o comportamento do desapego ou desamor de um filho e filha ao pai e mãe é um fenômeno dependente do vínculo de igual forma pouco amoroso, pouco ensinado ou praticado de pais com os filhos; que assim, vão se tornando maiores e adultos com essas introjeções dessas relações, assim praticados por esses pais com esse estilo educação, ético e moral de vida. Quantas são as crianças que são tutoradas, cuidadas e formadas predominantemente por babás, parentes e creches! São filhos, candidatos a adultos com relações superficiais, frágeis, desamorosas, hipoafetivas com os seus pais.

Os estudos de Sociologia, de Psicologia Familiar, e mais tipicamente da Filosofia de Bauman, encontram na Internet e Redes Sociais o seu grande laboratório experimental. Todos os recursos e opções de entretenimento, de coloridos, de futilidades e vazios culturais das Tecnologias da Informação (ou desinformação e deformação), como os múltiplos smartphones se tornaram instrumentos dessa alienação das pessoas. Principalmente das chamadas gerações nativas digitais, as que nasceram e cresceram e são educadas com acesso irrestrito a esses objetos e recursos virtuais. Vários países como Suécia, França, Noruega e mesmo o Brasil, através de suas políticas de Educação concluíram da necessidade de legislar, criar regras e diretrizes, vedando o uso de celulares em ambientes escolares, inclusive nos recreios. Louvadas iniciativas; antes tarde que nunca. Façamos essa reflexão, o descalabro e insensatez do desmedido uso de mídias e celulares por alunos e crianças chegaram a tal ponto que os Estados (países) se viram obrigados a impor leis nesse uso ou abuso. Instrumentos de alienação e baixo rendimento escolar e cognitivo. São conclusões de ensaios e pesquisas neurocientíficas.

Ao se comparar o que seja as relações familiares tradicionais, muito comuns em tempos sem internet e sem telefone celular. Um filho ou filha mantinha uma relação afetuosa e amorosa com o pai e mãe, de forma permanente e sólida. Havia uma reciproca conexão de respeito e amor, de reconhecimento do pai ou mãe como um modelo de honestidade, de conduta e estilo social de vida. Um filho ou filha, crescia, se casava e mantinha esse vínculo generoso, de gratidão, de respeito e amor aos pais.

Vivemos tempos em que certos filhos e filhas, a depender de como foi a relação com o pai, para esse filho ou filha, pouco importa ou o sensibiliza quando esse pai ou mãe morre. É apenas um fenômeno de menos um encargo, menos um dever do cuidado. Conforme a personalidade desse filho ou filha, cumpriu-se apenas aquela formalidade final, de terminalidade da vida. Passados pouquíssimos dias, a vida para certo filho ou filha segue até mais leve, e vamos aos rodízios, a feijoada, ao Sushimi, ao sanduiche, às goiabadas e bons pratos. A vida segue. “Ah, também chegou a hora, ele estava sofrendo”!

Uma demonstração do chamado desapego e do amor frágil e liquido entre um pai e mãe de geração pré Internet e filho ou filha nativa da Internet, geração adicta e plugada em Instagram e WhatsApp, se vê e sofre quando esses filhos saem de casa e vão estudar, morar fora ou se casam. Fatos e comportamentos vistos nas visitas de um e outro lado. A mãe recebe o filho ou filha com todo capricho e requintados pratos, lanches, belos almoços, todo esmero na satisfação do gosto digestivo desses filhos. E a contrapartida? Pai e mãe vão visitar esses filhos. Para eles a vida segue normal. Nada preocupados, em cuidar de seu conforto alimentar, de conforto de hospedagem! Vida habitual. Vocês querem almoçar? Então vamos ali no restaurante aqui do lado. Cada qual que pague o seu prato. Enfim, bem cravou e sublinhou Bauman, relações afetivas liquidas, maleáveis, frágeis e nada sólidas. Cada um por si e Deus por todos!

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