ENCONTROS

 A vida e a convivência humana podem ser construídas por encontros e desencontros. Por semelhanças e diferenças, por trombadas e freadas. E tudo pode ir melhor pelo melhor dos caminhos. Mas, nem sempre pode findar bem para todos os participantes.

            A questão do resultar favorável para um ou outro lado é que exige muito tirocínio, muito tato e habilidade por algum componente do grupo. Trata-se de um ardil ou cilada própria de certas cabeças humanas, daí a inteligência e paciência de alguém, da engrenagem para a mais humana e civilizada solução final, sem melindres, sem atingir sensibilidades dos componentes, de convivas, de presentes e anfitriões.

            O cenário aqui delineado é suscetível de ocorrer em muitas quadras e esferas da vida, nas relações namoradas, nas conjugais, nas societárias, nas corporativas, nas profissionais, nas recreativas e comemorativas. Pode ser desde um baile, um jantar familiar e mais íntimo, não importa.

            Foi numa dessas em que se enfiou o sujeito Felício Santoro, conforme me referiu com os próprios termos. Santoro fora convidado para uma cerimônia informal, uma espécie de “rega-bofes”. A ceia seria numa espécie de brinde e louvaminhas, homenagem a Garibaldi Olival, como reconhecimento e honrarias pela sua vitória em certo certame da vida normal estudantil. Sublinhado aqui vida normal estudantil. Felício Santoro, assim chegado no habitáculo, onde se daria a tertúlia gustativa, fora recebido, ainda aos abrações e afagos pela consorte do anfitrião. Meio contrafeito, mas como em equilíbrio de estatueta brônzea retribuiu os afagos e salamaleques. Mesmo sendo essas expansões fora de suas comunicações habituais por tradição e educação familiar. Mas, feitas essas receptividades chegou ao interno da residência, local da confraternização. Ali se encontravam o chefe do Clã familial. Alguns pintalegretes e patuscos, com suas respectivas namoradas.

            O primeiro desencontro de Santoro foi o estilo musical. Tocava músicas sertanejas classe D, daquelas que animam casas de encontros de homens pândegos e mulheres públicas e outros eventos de mesmo gênero e preferência. As bebidas eram de cervejas e outros destilados. Comidas se compunham de amendoim, produtos derivados de farináceos e massas de categoria B e C.

            Os assuntos tratados iam todos a contra-pelo das preferências do convidado. A hora de servir a ceia beirava a meia noite. Felício Santoro a essas horas já estava tomado de tédio e hemicrania. Só para refrescar o mnemônico, hemicrania é uma dor de um só lado do crânio, aparentada com enxaqueca. Enfim, era aquele dia que tudo conspirava contra as preferências gastronômicas, contra o estilo musical, contra os diálogos de os convivas de copo e mesa ali presentes, em relação ao convidado Felício Santoro.  Existe aquele ditado que há dia que de noite é assim mesmo.

            São dias, são noites, assim de encontros. Mais desencontros que encontros. Paciência, perseverança, civilidade. Mas não é fácil . Há dias em que de noite é assim mesmo. Acontece.

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