O PASMO DAS TRAGÉDIAS

 

Só mesmo as Ciências podem nos dar respostas para muitas coisas, para muitos fatos naturais e humanos. Por que os humanos se comportam assim ou assado, das maneiras, muitas vezes, as mais inesperadas e inexplicáveis? Eis as dúvidas. Muitas delas quem respondem são as Neurociências, a Medicina, a Psicologia, entre outros ramos do conhecimento alcançados por pesquisadores e cientistas. A vida é isto, é essa fonte inesgotável de mistérios, de dúvidas. Por isso, os próprios humanos com sua inteligência, com sua curiosidade, com sua argúcia em busca do saber para desvendar muitas dessas perguntas.

Neste texto trato dos mecanismos que movem as pessoas diante das tragédias alheias. Observem os leitores e leitoras o quanto de interesse e curiosidade que invadem a mente e o espírito das pessoas ante um fato trágico, um acontecimento inesperado e de grande repercussão jornalística, na televisão e redes sociais! Percebem?

Para tanto necessário se faz o auxílio e subsídios da Neurociência e da Psicologia, com auxílio e uma mãozinha da Psiquiatria. Vamos para a melhor compreensão, falar das convenções estabelecidas pelo Estado, pela Sociedade e segmentos civis de cada Nação. O ser humano sempre teve a impulsão e tendência para viver fora das regras, dos trilhos seguros de convivência.

A própria criação dos Estados, com seus estamentos, constituição e leis foi no sentido de colocar ordem na convivência humana. Do contrário o instinto ou inclinação do “homem como lobo do próprio homem” seria muito maior do a que já existe na prática mais do que a teoria prevê.  

Na construção do Estado então ficaram estabelecidas as normas do que pode e não pode nas relações sociais. Por consequência, as leis, os ajustamentos de postura, os códigos de ética, os regimentos internos das instituições públicas. E por que a formação e convenções dessas chamadas regras, leis e normas de convivência? Simples! Porque o animal ou bicho humano traz intrínseco, no seu instinto interno a pulsão, a vocação para proceder, em viver e se comportar fora dos padrões honestos e civilizatórios. Fora das normas e do convencional, para simplificar.

O que existe de consideração ou paralelo entre as tragédias alheias com as leis e normas de convivência é justamente essa constatação. O trágico e aquilo fora do convencional, do combinado. Para robustecer e materializar essas noções e explicações das Ciências vamos pegar o exemplo da morte acidental de uma figura pública ou privada ou festeira de muita visibilidade pública, muito midiática. Um ator, um cantor, um personagem com o chamado carisma e popular. Esse personagem que a imprensa, as televisões, o mercado explorador os classificaram como “ídolo”.

E nesse processo entram outros mecanismos psíquicos. O do efeito manada e o da doutrinação ideológica ou cultural. Cada pessoa, cada cidadão e cidadã traz de forma inata e intrínseca a inclinação de seguir um líder, um mentor, um modelo, um grupo; enfim, a manada. Entendido que esse líder ou grupo pode ser os canais de televisão, as redes sociais, uma associação, uma agremiação qualquer. Órgãos esses de grande apelo social, com influência cultural e doutrinária nas pessoas.

Muitos são os artistas, os chamados ídolos que nada mais são do que a construção e propaganda dos veículos de comunicação, as televisões, da internet e Redes Sociais. Decorre daí o impacto, a estupefação, o pasmo que a morte acidental, trágica de um(a) artista traz nas pessoas. Essa vítima é uma figura fora do trivial, do comum, extraordinária, que não tem uma vida, uma maneira de se portar como se obriga a população inteira.

Não é sem razão, portanto, que todas as televisões e mídias tomam esses eventos trágicos como um meio e instrumento comercial, um evento mercadológico, a pretexto de o fazer como jornalístico e informativo. Nesse objetivo, as tragédias não bastam ser noticiadas simplesmente. Elas devem ser exibidas na sua crueza, na sua forma mais aguda e viva possível.

Não importa se há choros, desolação e perplexidade. As encenações precisam causar pasmo, interesse, e estupefação nos consumidores, nos leitores, nos ouvintes e telespectadores. Enquanto audiência houver, as cenas e o seriado ficam no ar. Explicações, portanto, neurocientíficas, psíquicas e mercadológicas. Peguem as mortes causadas pela covid 19, chegaram a 3 mil por dia. Decresceram, 400 por dia. Elas causam impacto? Nem tanto mais. Houve o fenômeno da acomodação, entramos na zona de conforto com essa hiper trágica estatística. O deslumbramento e pasmo da morte de um “ídolo” traz embutido o efeito de um fetiche, aquela figura a quem os adeptos transferem afetividade e poder maior. Mecanismos neuropsíquicos.

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