A TIRANIA DAS RELAÇÕES DE TODOS NÓS
JOAO JOAQUIM
O tema aqui será uma viagem, uma digressão sobre a vocação ou inclinação do homem pela violência, nas suas mais variadas formas, pela tendência de agressividade que está latente dentro de cada um. Ou em outros termos pela opressão, pela exploração, escravidão e dominação do outro. E esse outro está contido num largo espectro de pessoas, indo desde o indivíduo estranho, um subalterno, um empregado, um colega de trabalho, um parente; não importa o tipo de vínculo social estabelecido. Se buscarmos todas as referências da humanidade, lá estão consignados os eternos embates. Os conflitos, a exploração, a opressão, os casos de violência, de injúrias e assassinatos, pelos motivos os mais torpes e indignos. Entre esses motivos temos como exemplo, a inveja, o ciúme; ou o simples desejo de maltratar e busca de dominação do outro.
Na tradição bíblica, temos lá a narrativa da família adâmica. Adão e Eva tiveram dois filhos, Caim e Abel. Ambos dedicados a ação de pastoreio. Num desentendimento banal, Caim comete o 1º assassinato da história, matando o próprio irmão. O primeiro fratricida descrito na trajetória do homem, em sua conduta de violência.
Ao revisitar a história e evolução humana elas estão repletas de violências e mais violências, de torturas, de tiranias, de morte por razões de todos os matizes. São os motivos passionais, por posses de territórios, por conquistas de outras nações, por ciúmes e invejas, por motivos religiosos, por simples domínio territorial, por simplesmente querer atingir os objetivos através da aniquilação e morte do concorrente e rival. Há uma diversidade de violência.
Buscando exemplos na seara e domínio das religiões. Se revelam os casos mais esdrúxulos e mais incompreensíveis quando o assunto é o sentimento da violência praticado contra o outro. Só porque ele pensa, ele professa e pratica uma religião diversa de quem o oprime, persegue, agride e mata. Se revela um fenômeno que tem a idade do próprio homem quando se busca os registros de cada seita, cada denominação religiosa, cada expressão de fé.
Olhemos a história das cruzadas, da perseguição dos cristãos por muçulmanos e vice-versa, o massacre da noite de São Bartolomeu (1572) em que mais de 1000 huguenotes (protestantes) foram mortos pelas forças leais ao governo francês. Tudo isto antes da reforma de Martinho Lutero, na Alemanha. Nenhum exemplo maior de intolerância, violência e opressão existe na história do que os praticados pela inquisão da igreja católica. Eram atribuições do tribunal do santo ofício. Eram violentas repressões contra heresias, tanto de natureza religiosa como as contra judeus e muçulmanos, bem como as de natureza científica. Toda orientação ou descoberta científica que contrariavam as “verdades” ou dogmas da igreja católica e seus líderes estaria sujeita a um processo canônico (direito canônico da igreja católico), a um julgamento sumário pelo tribunal do santo ofício e a pena de morte na fogueira. Foi o que ocorreu com Giordano Bruno (1600). Ele era teólogo, escritor e filósofo. Giordano foi acusado de heresias por apontar erros nas doutrinas da igreja e contrariar “as verdades” impostas pelos líderes do catolicismo. Ele foi processado, perseguido e por não renunciar às suas convicções religiosas e científicas foi queimado vivo.
O mesmo destino quase teve Galileu Galilei (1564-1642). Ele defendeu sua descoberta do sol como o centro do universo, o heliocentrismo , em oposição ao que acreditava a igreja no geocentrismo, a terra como o centro do universo. Ele foi preso e julgado. Só não foi para a fogueira porque se amarelou, teve que negar publicamente a sua teoria e foi poupado de virar cinzas. Há quem afirme que ao contrário de Sócrates e Giordano Bruno, ele foi um fraco. E assim evolui toda forma e natureza de violência, tendo sempre o ser humano como protagonista dessa ação.
O que parece conclusivo é que o homem traz uma semente, um germe, um fermento de ódio e violência dentro de si . Seja no cenário ideológico, no político, no religioso. Ninguém está a salvo da sanha e dos instintos agressores e perseguidores daqueles que acham que existem apenas as verdades de um lado, de algumas cabeças pensantes. Não há respeito e aceitação da diversidade, da autonomia e do direito do livre pensar e expressar do outro.
Um cenário onde vicejam as cenas de violência se encontra nas torcidas de futebol. As expressões e atitudes de violência dos estádios e arenas de futebol nos lembram o que se praticava no antigo coliseu de Roma. Naqueles idos e negros tempos os torcedores entravam em delírio quando prisioneiros e inimigos políticos eram jogados para serem devorados pelas feras mais perigosas como tigres e leões.
Nos tempos modernos os confrontos entre torcedores de futebol fazem o mesmo que faziam os gladiadores do coliseu romano. Brigas, violência de toda ordem, aniquilação e morte dos rivais. Pelo banal motivo da vítima torcer e simpatizar pelo time rival do agressor. Existe uma razão mais fútil do que esta para matar uma pessoa ? Novembro/2018.