É certo que estou escrevendo este texto, é verdade que eu gosto de escrever. Quantas vezes nos mais rotineiros diálogos e comunicação verbal afirmamos categoricamente, de bate-pronto: com certeza! é verdade! São respostas que brotam em um automatismo irrefletido, direto, sem que avaliemos no que assentimos, concordamos. As respostas são tão sem sentido e sem nexo de verídico que as pessoas que respondem sequer ouvem com nitidez a invocação, o apelo, a afirmação do interlocutor
A par desses automatismos e irreflexões existem até aqueles apelos a recursos da chamada falta de assunto. É quando não tendo recurso ou assunto a se palestrar ou criatividade o sujeito fala das coisas óbvias e ordinárias daquele momento. Nas palavras de Nelson Rodrigues, fala do óbvio e ululante. Dá vontade de jogar o sujeito no oblívio. Exemplos dessas simplicidade ou simplicismo: está muito calor, parece que vai chover ou dar sol e assim por diante, antes da lua cheia temos minguante, porque depois vem a nova, crescente e de novo a lua cheia. E assim, todos vão se fazendo existir no mesmo rame-rame de parte perdida da humanidade. Muitos vegetem, vivem como zumbis, de forma robotizada, sem inventividade ou qualquer vaidade.
Se algum leitor duvidar de tais graves gestos de comunicação que faça ele mesmo uma experiência com algum amigo da intimidade para comprovar tal realidade. Ela é fáctica e encontradiça.
Dia desses eu deliberei em aumentar essa minha estatística, em encontros fortuitos e casuísticos com algumas pessoas de costumeiras relações. Ao 1º, após os costumados bons dias, em tasquei para o sujeito a pergunta de forma mal soletrada: a sua boiolagem continua boa e na mesma hein? Ao que ele não titubeou e disse é verdade!
Como de todos sabido boiola é uma gíria designativa do sujeito homoafetivo. Mais aplicada ao homem. Trata-se de um termo com um ar pejorativo e de menoscabo. E que não se deve a ninguém ser referido, principalmente quando de fato a pessoa fez a preferência homoafetiva, porque aí, sim, é ofensa.
No caso aqui da experiência, o amigo interpelado e íntimo de longos anos, era com absoluta certeza, olha a certeza (sic) aí presente, era esse amigo sabidamente e recalcitrante não homoafetivo e, sim, heterossexual. Foi então que eu lhe enderecei uma réplica. E me socorri do recurso mineiro com um uai. Uai! mas, você tem uma nova opção ou escolha sexual? Foi então que ele atinou com a resposta. Mas, o que você perguntou mesmo? Disse-lhe então bem nítido e soletrado: você continua na sua boiolagem? E ficou desfeita a resposta. Não, não, eu continuo na mesma preferência pelo sexo oposto.
Só como outro exemplo, novo contato, porque tratava-se de um amigo com duas qualidades características; velocidade e correção ética em tudo. Em um inesperado encontro festivo, conversa vai e vem e casquei-lhe essa afirmação: você é um grande cangancheiro? E ele de bate-pronto: é verdade.
No último exemplo aqui, trata-se de não saber o real significado das palavras. Porque cangancheiro é o mesmo que caloteiro ou estelionatário. Era tudo que esse amigo não era, dos mais honrados e ilibados homens que já vi na face da terra.
E assim vai a sociedade, e assim, roda esse mundo, onde muitas são as verdades e as certezas, as mais mentirosas e incertas das relações humanas.