Quero convidar as pessoas a prestar mais atenção em um fenômeno muito presente no comportamento dos cidadãos. Começa-se naquele mais simples do olfato. Do nariz, melhor dizendo. Já perceberam como o nariz, ou melhor o olfato se acomoda aos maus ou bons cheiros? Há até um nome para isso, limiar olfativo. A pessoa chega em qualquer ambiente, existe exalado um cheiro bem ardente e carregado. É bem provável que se ficar o dia todo nesse recinto a pessoa sai de lá sem sentir nada daquele odor. Só observar que tal fenômeno é muito comum e fisiológico.
É como se as fibras neurais, as vias sensitivas para aquele cheiro se tornassem entorpecidas, enjoadas e saciadas daquele cheiro, seja perfume ou fetidez.
O comportamento humano é repleto dos reflexos e adaptação da acomodação. Por exemplo, até nas etiquetas e éticas da convivência saudável. De fresquinho eu me recordo de ter apresentado a certa pessoa os meus protestos pelos seus repetidas contatos telefônicos e redes sociais. Porque representa uma falta de etiqueta e até ética no convívio; com quem quer que seja. A pessoa chamada está ali na sua faina, nas suas lides laborativas e vem lá aquela desocupada e patati, patatá, e aquela conferência sem fim.... Não pelos contatos em si, que se breves, são normais. Mas pelo esticamento das cordas, das falas etc. e tal. Porque tais liames de palavrórios era um reco-reco que se fazia como bala dum dum. Se ricocheteava o tempo todo. Conferências, sem fim. Ufa! Parada inicial, veio o tal reflexo de novo. Ufa! regra de Murphy, que nos atormenta. E tudo como dantes no quartel de Abrantes!
E assim vamos deparar com inúmeros outros cenários do expediente para o bem e para o mal. O filosofo Nietzsche afirmou por exemplo que o indivíduo se adapta melhor e mais rápido ao falecimento de um ente querido do que a uma falência patrimonial. O pai, a mãe, o marido morreram. Ah, era isso mesmo, destino. Há um prejuízo monetário, patrimonial, calote de algum folgado. O desajuste social e psíquico tem grande chance de se eternizar. E olha quem foi o pensador que fez tal vaticínio. Muitas são as condições trágicas, em que passada a ameaça, o assombro, logo logo vem a chamada acomodação.
Tome-se o exemplo das pandemias. De início a pessoa se torna fóbica, nosofóbica. E o medo de adoecer. Até a tanatofobia, o medo da morte. Vão se vacinando as pessoas, a estatística vai se aliviando, se acalmando, o obituário vai escasseando. E veja só o que acontece. As pessoas, em geral, o povo, a plebe, o povão mesmo! Todos entram no reflexo da acomodação, relaxamento, baixa total da guarda e os medos, as fobias vão-se embora.
Na política. Existem os crimes dos governantes, de presidentes, e sua claque e sequazes. De toda aquela malta e tropa que os protegem. Instala-se CPI, inquéritos, oitivas, documentos de todos os cantos do país. Entrevistas, discursos, censuras, acusações, xingamentos.
Promessas de investigação, recepção de denúncias por órgãos de investigação, Supremo Tribunal Federal acionado. Cria-se a maior das expectativas, o bafafá todo. Passam-se 6 meses, 2 anos, nada. Ninguém, mas ninguém mesmo é punido. Acomodação só. Até no âmbito político, legislativo e judicial. Mas, no Brasil, parece que as coisas ocorrem com mais frequência e perfeição.